quinta-feira, 25 de junho de 2015

PELA BRETANHA E NORMANDIA


                           PRIMEIRA PARADA:  GIVERNY


Dia 8 de maio estava na nossa agenda com muitas expectativas.Iríamos para Bretanha e Normandia, para conhecer o Mont Saint Michel e algumas cidades medievais nos arredores. Saímos cedo para  pegar o carro alugado na Hertz ( na pequena Place St Ferdinand).O carro escolhido foi uma perua , para cinco pessoas e 5 malas. Ao chegarmos no apartamento para transferir as malas não coube quase nada. Resolvemos voltar para a locadora, que por sorte ficava  na vizinhança, para fazer a troca por um veículo maior, mais espaçoso e trocar o bebê conforto mandado no lugar da cadeirinha. Não houve burocracia, apesar de a loja estar cheia e ser uma sexta feira-feriado.De todo modo, um certo atraso foi inevitável. 
As ruas de Paris no Arco do Triunfo ( perto do  nosso hotel e do apartamento do nosso filho) estavam fechadas. Haveria um desfile militar em comemoração ao final da II Guerra Mundial. 


Na saída da cidade o trânsito foi ficando mais difícil. Além das pessoas saindo para o feriadão havia um acidente. Curiosidade lá igual a daqui. Depois de passar o local da batida, tudo acalmou. 
Chegamos ao destino, na Normandia aí pela hora do almoço. Giverny é uma pequena vila, com cerca de 500 habitantes. É um mimo, parece irreal. As conhecidas flores, retratadas por seu mais ilustre morador, CLAUDE  MONET, eram vistas por todos os cantos, nas ruas, praças e residências.  Eu diria que Giverny é um canteiro de flores.
                           
                    SOBRE A VIDA DE  MONET

Ao contrário do que se pensa, Monet não era nascido em Giverny, mas adotou este paraíso para viver.Tenha-se em conta que ele trocou Paris pelo pequeno vilarejo. Foi ele que transformou ou que preservou e ampliou a sua moradia, fazendo dela um recanto muito especial, pois os seus jardins são obras humanas dando um upgrade na natureza.


Ele nasceu em Paris, onde seu pai era um pequeno comerciante. Mas ainda com tenra idade (5 anos) mudou-se para  a cidade portuária de Le Havre. Ali pelas praias encontrou Boudin,  que lhe ministrou ensinamentos sobre pintura ao ar livre. A habilidade para a arte nasceu com ele e se desenvolveu pela influência do meio e encontros casuais como esse com Eugéne Boudin. O fundamental acredito,  foi o empurrãozinho de uma tia que morava num certo e pacato vilarejo chamado Giverny. 


Ela era pintora. Com a morte da mãe de Claude ( que na ocasião tinha 16 anos) ele  passou a morar com essa parente, naquela casa que viria a ser sua e ali teve o apoio e o incentivo de que precisava. O pai tinha projetos que ele continuasse o seu pequeno negócio, mas não teve forças suficientes para afastá-lo dos seus dons naturais. E o interesse pela pintura falou mais alto.Foi estudar pintura em Paris. 
No início da carreira teve dificuldades financeiras, mas em vida ainda usufruiu das glórias do reconhecimento. Não pensem que a crítica o poupou. O quadro denominado "Impressão, o sol nascente", em que o pintor usou  das cores,  luzes e sombras para fazer os contrastes e a cena principal da obra, foi duramente criticada. Essa pintura veio a dar nome ao movimento modernista , que o teve como um dos seus expoentes, o Impressionismo. A imprensa tratou-a com desprezo e a ridicularizou. Mas isto não influenciou no ânimo de continuar com  sua técnica. Mesmo  não sendo admitido em alguns salões de arte, criou com os amigos Pissarro, Le Courbet e outros , uma sociedade independente para divulgar e expor sua arte. Tudo encarado com certo humor,e aí se ligou inexoravelmente,  a Renoir, Sisley, Cezanne. Ao contrário do que diziam seus opositores sua obra era um primor , pois de perto pareciam pinceladas ou borrões, mas de longe a pintura se mostrava com todo o seu conteúdo, vivacidade de cores, sombras e luzes. 
Casou-se com Camille Doncieux, sua musa e modelo. A mulher morreu jovem, no segundo parto. Ele teve os filhos Jean e Michel. Viúvo, acomodou-se na pacata Giverny em 1886. Com o tempo, acabou se unindo à Alice,viúva de um amigo,  que criou seus filhos. 
Morreu aos 86 anos, para a época era bem idoso.Isto foi em 1926. Pudera, aquele ambiente saudável e alegre deve ter ajudado nessa longevidade. Nunca mais saiu de Giverny e ali encontra-se enterrado na igrejinha de Sainte Radegonde, pertinho de seus jardins. Seu túmulo branco é coberto de flores.

Cercou-se delas em vida e na morte também.
Contei a sua história, porque é linda, é única.
Mas vamos à cidade então, ver o que nos espera. 



                  COMO IR A GIVERNY

De Paris a Giverny há meios de locomoção fáceis. Se você está em Paris e não quiser se aventurar de carro, tome um trem na Gare Saint Lazare e vá até Vernon. Lá há ônibus para vencer a última parte do trajeto. O ônibus chamado Navette Paris-Giverny custa 8 Euros ida e volta e sai a cada 15 minutos após a chegada dos trens de Paris ou de Rouen. 
De carro sempre é mais confortável porque você para onde tem vontade. Nós tivemos uma certa  dificuldade inicial para encontrar vaga de estacionamento, por puro comodismo. O estacionamento principal  fica diante da casa do pintor e estava lotado.
mapa da cidade

 Mas, seguindo em frente e dobrando na Rue Le Pressoir , primeira à esquerda, a seguir pegando-se a direita,  Rue Chemin du Roi dirige-se até a primeira rótula, entrando à direita. Há ali uma área  ampla e segura para se deixar os veículos, inclusive com  banheiros e fraldário. O único inconveniente foi empurrar o carrinho na área pedregosa. Mesma dificuldade que devem ter os cadeirantes. Ao chegar a rua principal já se encontra o conforto do asfalto. Se tiver pessoas nestas condições deixe-as em frente à casa de Monet, depois vá guardar seu carro.

Rue Claude Monet ( óbvio!)

 Resolvemos também almoçar , antes de começar a visita, por causa da criança, cuja fome não espera.
                
                      ONDE COMER

Não é o tamanho da cidade que vai definir a gama de restaurantes da Comuna, mas a demanda, o grande número de turistas. Então fica fácil se alimentar. Próximo à Fundação Monet ( casa do artista) há pelo menos cinco restaurantes. Nós escolhemos o La Capucine, que tem um jardim, com ombrellones e mesas ao ar livre. Mas devido a um certo ventinho incômodo ficamos na parte interna. O restaurante é rústico como uma casa de fazenda local. Bem charmoso. O quintal é cheio de vasos e objetos de jardim, além de plantas que eles comercializam.
jardim do La Capucine

 O serviço é feito como um self service,comidas expostas numa vitrine,  cobrado por preço de pratos e não por quilo. O pessoal é simpático para atender, mas eu particularmente achei a comida muito aquém do meu gosto pessoal. O que precisava de sal não tinha e o que precisava de açucar também não. 
Talvez eu não tenha escolhido bem, porque a minha família pediu variações de cassoulet e todos gostaram.O endereço é Rue Claude Monet, 80. Existem outros bem recomendados nas imediações, como o Les Nynphéas, no número 109 da mesma rua. Mas é servido com certo requinte gastronômico e não tínhamos muito tempo a perder com rapapés, pois ainda queríamos seguir viagem para a Bretanha no final da tarde. 

O interessante neste restaurante é a boutique que tem ao lado, com toda a sorte de objetos interessantes e chamativos, como toalhas bordadas e pintadas, panos de prato,objetos decorativos para casa, os maravilhosos sabonetes artesanais e as flores naturais. Pode ter certeza que sairá com uma lembrancinha desta colorida e atrativa loja.


floricultura do Les Ninphéas

Na mesma rua Monet, no número 96 você vai encontrar o restaurante italiano, Aquarelle. No número 123  o americano Creperie La Musardiére. Os dois mais requintados e que possuem certificado de excelência são: em primeiro lugar, o LE JARDIN DES PLUMES , situado numa paralela ( na continuação da rua do estacionamento a que me referi), Rue de Milieu n. 1, e o segundo seria o L'Ésquisse Gourmande, no 73 da Claude Monet, agradável para esta época pelas mesas ao ar livre. Ambos os estrelados tem como especialidade a comida francesa. 
                          
                           INGRESSOS http://fondation-monet.com/
Depois do almoço rápido,  fomos comprar ingressos para fazer a tão desejada visita. Não há dificuldades. Tudo fica na ruazinha central que leva o nome do artista. E o grande número de pessoas logo indica para onde você deve se dirigir. O preço para a visita aos Jardins e à Casa é 10,20 (aumentou de maio para cá) Euros para adultos, crianças a partir de 7 anos  e estudantes pagam 7,50 Euros, até 7 anos as crianças não pagam e os cadeirantes pagam 5,70 Euros. Os tickets podem ser comprados também diretamente na FNAC, em Paris,  e pela internet na FNAC, no Ticketmaster ou na Digitik, com um acréscimo de cerca de 1,45 Euros pelo serviço. Há opção de visitar o Musée des Impressionnismes( ticket conjugado). 

                        OS JARDINS

Jardim de L'Eau

Ao contrário do que pensávamos , os jardins são amplos e divididos por uma estrada e uma ferrovia. O trecho desse outro lado foi adquirido por Monet tempos após ir habitar definitivamente a  sua bela casa/atelier. Depois de ingressar na propriedade, na rua lateral,  você terá que descer por uma passagem subterrânea que liga os dois pontos do jardim.Já aviso que não é fácil para cadeirantes e papais com carrinhos de bebê. Um sobe e desce sem qualquer rampa ou outra facilidade.
Mas a gente logo esquece os tropeços, ante a visão dos jardins.É uma explosão de flores e de cores que realmente só enriquece aquele pedaço de paraíso. Ali existe um córrego, o Ru, afluente do Rio Epte. A aquisição desta parte do terreno,por Monet, trouxe problemas com os sitiantes vizinhos,que achavam que ele iria poluir e afetar a produção e a criação do entorno. Ma Monet conseguiu provar que as flores que plantaria eram nativas e que cresciam ao longo dos rios. Vive la préservation de l'environnement!Já tinha quem pensasse nisto no século retrasado. 

córrego Ru, que passa pela propriedade

Diante do Jardim das Águas temos o grande espelho d´água, que com o reflexo do céu e o esplendor das plantas que o circundam inspiram quem gosta de pintura e de fotos ...como eu. No grande  lago forrado de ninféias, uma orquestra de rãs atraía os turistas. São muitas e faziam uma barulheira enorme. Era mais que uma orquestra, uma verdadeira fanfarra.Bambus arqueados sobre o lago,  formam juntos com os ginkgo bilobas uma parede verde. Há além destas, árvores e arbustos  com um cclorido de fogo,  como  as azaléias vermelhas, e outras em tons mais delicados como as cerejeiras japonesas, pés de framboesa, macieiras. Quando o sol se projeta sobre as plantas da borda do lago,  o cenário se tranforma marcado por luzes e sombras. Superbe! Com esta visão eu acho que entrei na alma desse inoubiable  mestre!


bambus e ginko bilobas no grande lago

Caminhamos longamente à sombra das árvores e bafejados pelo perfumes de todas as flores que lá existem e acho que são quase todas que conheço. Um show de cores e matizes, inspiradores até para quem não é pintor, como me referi acima,  e muito menos quem sequer pensa em fundar algum movimento artístico. Cruzamos devagar a Ponte Japonesa (feita de madeira de Faia), e ali ensaiamos muitas poses para fotos, debaixo de uma cortina de glicínias azuis cujos cachos pendiam  logo acima de nossas cabeças.


Ponte Japonesa - a famosa

Depois nos dirigimos ao outro lado do jardim, o mais antigo,  O Clos Normand,onde se destaca  uma pergolado em  arcos e cujas trapadeiras são singelas roseiras, mas que fazem um belo efeito.


Clos Normand


Ele dá o toque aos fundos da grande casa rosa de janelas verdes. Se não fossem tantos os turistas eu diria que ali seria o lugar ideal para um descanso, tanto do corpo como do espírito. Caminhar por entre esses canteiros de papoulas, petúnias, íris, margaridas, jasmins, jacintos , miosótis, narcisos, gerânios, agapantos, peônias e um número incontável de outras sedutoras flores enchem os olhos e a alma de bem estar. Só um artista para imaginar um conjunto assim. Meu neto de um aninho adorou e correu para apreciar. Ele é muito gentil, como diziam os franceses, incapaz de arrancar um mato seco. Acocorava-se, apreciava e sorria  enlevado. Ainda organizava as pedrinhas ao redor das plantas. Coração de artista. 



Monet, ao que parece não viveu modestamente. Muito bom gosto nos cômodos, cozinha, salas e copa. Os quartos, embora no momento parcialmente mobiliados, mas  com os objetos originais da casa, mostravam que se tratava de uma família razoavelmente abastada.E grande. A viúva que veio para preencher sua vida ( e como preencheu) já trouxe com ela 6 filhos ( 4 meninas e 2 meninos).O total de residentes, era então, de 10 pessoas. 
Vamos descrever a visita ao casarão, por onde está demarcada a sua sequência pelos organizadores da Fundação Monet. A primeira sala , denominada Salon Bleu ( sala  Azul) porque as paredes e o mobiliário, são azuis. O piso é de azulejo hidráulico e os principais adornos são os quadros japoneses. Para se chegar ao atelier do artista, há uma saleta intermediária, que era mantida ao natural, sem aquecimento, para guardar alguns alimentos, principalmente ovos. Já o Atelier, possui quadros de todas as fases do pintor, mas não são originais, são réplicas. Os legítimos Monets estão espalhados pelos mais variados museus do mundo. 



A escada que liga o térreo ao primeiro andar estava forrada de quadros. uma amostra de um artista japonês, tão do gosto do dono da casa. 
O primeiro quarto a ser visitado é o quarto de Monet. Amplo e com duas grandes janelas tem uma privilegiada vista para o jardim. Fala-se que o quarto era modesto, mas o colchão parecia daqueles confortáveis, e a vista era todo o tesouro. Modesto só para os que não sabem identificar a verdadeira riqueza.



Monet olhava o mundo com uma visão "colorida", daí seu quarto ter váriações de amarelo nos móveis, porta lilás, janela verde e alguns móveis mais valiosos em madeira envernizada. 
Seguindo-se há o quarto de Alice, com uma aconchegante lareira com o frontão de mármore preto, paredes azuis junto à cama e tecido floral no resto do quarto. A cama de verniz é de veniz com criado do mesmo estilo.
Quarto de Alice

Uma escada leva de volta ao andar térreo, onde se sai na ampla e também colorida sala de jantar, em tons de amarelo vivo. Vários guarda louças com peças em faiança azul, dão ao ambiente o destaque que precisava, juntamente com uma bela coleção de gravuras japonesas de Monet. 

A cozinha é outro dos ambientes que dão calor à casa, não só pelos fogões  a lenha e carvão, mas pela beleza do conjunto.Panelas de cobre ficam penduradas em prateleiras, à mostra. Os azulejos ( provenientes de Rouen)são de um delicado tom de azul.
    

Da cozinha sai-se para os jardins novamente. A visita não contempla todas as peças da casa, mas é o suficiente para se entrar na intimadade e no gosto dos seus idealizadores. 

SUGESTÃO: Eu começaria a visita pela Igrejinha de Sainte Rodegonde, , no topo da rua. Na volta passando em frente ao museu eu entraria logo. É belo, com obras referendadas pelo Museu D'Orsay. Os  jardins são no estilo dos da casa do grande homenageado. Ao final passaria o resto do tempo na Casa Monet e nos  Jardins. Lá ainda pode tomar café, visitar a orangerie, vasculhar cada milímetro da aprazível propriedade e para quebrar o impacto de tanta natureza ir até a boutique. Há muito o que fazer lá ou não fazer nada mesmo e só apreciar.                 
 MUSÉE DES IMPRESSIONNISMES     ww.mdig.fr e http://giverny.org/museums/impressionism/impressionnisme.htm

Situado na Rue Claude Monet 99, o seu acervo embora não muito vasto é equilibrado e os espaços bem pensados. As peças são adquiridas pouco e pouco e voltadas para o tema impressionismo, com a doação ou mesmo compra de algumas telas com dinheiros arrecadados pelo Sociedade de Amigos do Museu.Sempre avalizadas pelos especialistas do Musée D'Orsay. 
O prédio é coberto de plantas, inclusive o seu telhado. Poucas paredes são deixadas à mostra. No interior as janelas são voltas para as colinas de Giverny, deixando entrar a claridade natural nos quadros pintados na localidade e que valorizavam essa mesma paisagem. 
O conjunto da obra está organizada em torno de um salão grande e iluminado. À esquerda existem três salas de exposição e à direita um restaurante que se abre para o terraço.
Uma de suas salas é toda direcionada a Monet, obras de amigos que o retrataram e que foram cedidas pelos descendes desses.
As exposições temporárias têm contribuído para aumentar o interêsse pelo Museu. Muitos dos expositores deixam algum quadro para o acervo. Tudo sempre ligado ao tema Impressionismo, Monet, pintores da época da criação do movimento e  seus seguidores através das novas gerações.
Citamos algumas obras pertencente ao Museu: Soleil blanc sur les blés de Maurice Denis, L'île a bois de Maximilian Luce e uma obra recente Reflets de nuages dorés de Hiramatsu Keiji (2010). 
No exterior os jardins perseguem a tendência da localidade e há terraços e pomares,canteiros de plantas aromáticas além de flores por todos os lados, bem como  um espelho d'água. ( pesquisas específicas efetuada nos sites : www.mdig.fr e  http://giverny.org/museums/impressionism/impressionnisme.htm

2 comentários:

  1. Com suas palavras sobre " O Jardim de Monet", pintou um "Monet" no seu Blog. Inspirada nas flores, nas cores, pincelou a dedicação que o artista dedicou ao seu talento!

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    1. Agradeço o seu elegante comentário.

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